No solo fértil e secular de
teu lema: Liberdade, serei sempre aquela camponesa que a tempos atrás sofria
com suas partidas, a amiga que cultivava a esperança e cujo coração
transbordava de exultante felicidade a cada retorno seu. Com esses sentimentos
atemporais que comandam minha alma, continuarei enfrentando a erosão das eras
protegida pelo manto imperial da nossa eterna e leal amizade.
Lembro-me ainda vivamente
daquele dia, em que do alto de impiedoso penhasco em frente ao turbulento mar,
assisti com o espírito dilacerado, sua partida... sabia que não haveria volta.
O azul dos céus e águas se converteu em pesado cinza, como se a natureza já
experimentasse o amargo sabor do luto. O vento lançava gritos lancinantes e em
seu furioso balé açoitava-me por todos os lados enquanto indomadas ondas
batiam-se estrondosamente contra as pedras, anunciavam e choravam o fim de uma
época, nobres e generosos sentimentos eram raptados, juntamente com você,
aquele que teve a audácia de erguer a voz e defendê-los. Indigna embarcação lhe
aprisiona, corta rapidamente o mar, sangra a História, e minuto após minuto, se
afasta, oscila... até desaparecer no horizonte, seguindo em sua jornada rumo à
maldita ilha "Santa... "
Ali fiquei, vendo a noite
chegar e aos poucos os protestos dos elementais foram se abafando, agora o
silêncio era o senhor, um mestre opressor e ele era só o arauto da tirania que
novamente reinaria e profanaria sua terra. Somente uma brisa cínica e morna
soprava fazendo meu vestido inflar como uma vela, debochando de minha saudade,
instigando meu ímpeto de lhe seguir, me desafiando a te salvar. Mas eu não
podia, minha palavra empenhada era a raiz que me impedia de, num ato heróico ou
louco, enfrentar de peito aberto nossos inimigos. Fechei os olhos e em
pensamento me transportei para a tarde que precedeu sua partida, ali estava a
minha missão, seu último apelo à mim, e eu o honraria.
"Passeávamos por
bosques simples, naturais, alí não eram necessários jardineiros, as flores
nasciam selvagens, frescas, longe das amarras da opulência. Você falava, mas
seus olhos me distraiam, comoviam, perderam suas defesas, você, aqui, não
precisa de sua "Máscara de César" , sua face está infinitamente mais
suave, sua alma está serena e determinada. Debaixo do precioso brilho da
autoconfiança que seu olhar inspira, solenes flocos de neve desafiam as leis do
Universo e caem lentamente sobre a escaldante areia do deserto, suas duas
grandes tristezas, se encontrando e se transformando em um lago de lágrimas
nunca derramadas ( fruto de uma sociedade refém do orgulho, cruel para os
homens ) que tentam sorrateiramente afogar suas vitórias. Reconheci em seu
semblante a sombra da decepção de um coração que durante toda a vida recebeu
punhaladas de traidores, intrigantes e ingratos que desavergonhadamente lhe
ofereciam lautos banquetes envenenados e lhe saudavam com rancorosos
aplausos... "
" … Nada eram além de
covardes que ocultos nas sombras, se condenaram à passar a eternidade no vil
véu do anônimato. Muito acima desses sofrimentos, em sua áura se ergue a chama
guerreira que te rege, continua soberana, moderando minhas preocupações, pois
no firmamento de seu olhar, encontro e compreendo o que aqueles egoístas jamais
poderão sequer imaginar. Que os invejosos afanem riquezas mortais, pois só isso
lhes cabe. Seu tesouro não pode ser roubado, pois não era um trono que te
enobrecia, pelo contrário, a dignidade da sua presença, a majestade das suas
palavras e a luz da sua honra é que espalhavam glória por onde passavam. Seu
livro do Destino está escrito em letras indestrutíveis, e você é o escritor.
"
Como sussurradas pelo bater
de asas de gentis borboletas, minhas certezas se reafirmaram, a sinceridade de
suas palavras me convenceu, pois ao conhecer a plenitude e o esplendor da sua
alma forjei a minha, para que eu não fraquejasse. Pois como você me disse
naquela tarde, em nossa despedida" Armas e guerreiros falharam, a partir
deste momento são inúteis, a melhor maneira de lutar por mim e guardar meu
nome, é combatendo com a verdade, por isso preciso da ajuda e da união de todos
os meus amigos, tenho certeza de que conseguirão proteger minha memória com
arte e sutileza. "Como sempre, você se antecipou a todos, pelo Bem do seu
povo, ouviu os conselhos do Futuro e partiu.
Faz algum tempo desde que
abandonei aquele penhasco e voltei pelo campo, relembrando seus momentos e
frases soltas, meu sábio e querido amigo. Meu "Adeus" não foi para
você, mas para aquela paisagem perdida, com ares de página virada, lúgubre, desoladora
e monótona. Os cenários e desafios mudaram mas continuo firme a trilhar os
caminhos que você me ensinou (e a descobrir outros novos) , então, que os
séculos me levem, que os segundos dancem seu minueto, vou vivendo, aprendendo,
partindo, voltando, escrevendo minha história...
Quanto a você amigo, o que
dizer? Está feliz, sabe que eu vejo, que sei, agora você é um anjo, inspirador.
De que tipo?Anjo da Guarda, não poderia ser outro. Um anjinho nada discreto
aliás, pois adora doces e vive se aventurando do céu pra terra e da terra pro
céu, em seu cavalo, correndo o mundo, trilhando ares de todos os continentes,
alcançou sua mais gloriosa conquista, seu tão esperado sonho, está LIVRE, para
sempre. E eu estou aqui diante de seus retratos feitos por hábeis e suaves mãos
de artistas (mais alguns daqueles nossos amigos,lembra? ). Seu porte? O que
posso falar... Inconfundível, único? E seus olhos como sempre... sorriem...
Ana Lettiere, 05 de Julho de 2009
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