À cidade
Acorde exuberante e pobre
cidade, volte seus olhos a tudo que realmente importa, antes que seja tarde
demais! Não desprezo, ao contrário, venero seus amplos teatros, onde o
esplendor habita os fartos e reluzentes palcos, lustres, cortinas, camarotes e
abóbadas douradas. Quero que vivam para sempre, pois são também provas da
eternidade e encantamento da arte, personificação de sonhos afinal foram
construídos para e por almas de artistas.
Não esqueça porém jamais,
quem inspira quem! Teatros e museus, só são construídos porque existem artistas,
gênios que muitas vezes começam na simplicidade! A arte não precisa de ouro e
luxo, ela tem o poder de criá-los. Sábios serão sempre sábios, não importa se
num castelo ou numa choupana! Rogo, por você mesma, não repita o erro dos que
escarneceram, por exemplo, de Beethoven! Hoje ele ainda é Beethoven... Quem
foram os outros, os intrigantes? Todos idolatram suas sinfonias... Onde ficaram
as risadas irônicas?
Não perca seu tempo e sua
alma, atirando moedas para os artistas do presente, achando que com isso é
superior e que tem o direito de lhes dirigir palavras ridículas e más, elas com
certeza nunca destruirão um artista e lá na frente, o destino se encarregará de
lhe devolver com a mesma “presteza”. O mundo gira e a Arte tem a bela mania de
ser protetora de seus filhos, não perdoa seus agressores. Num futuro não muito
distante sua consciência revelará quem realmente é digno de pena. Dica: Não são
os artistas!
Não pense, cidade, que a
odeio! Meu alerta é justamente por amor. Quero que no futuro seja lembrada pelo
Bem que existe e que sei que pode evoluir infinitamente em seu âmago para que a
História lhe preste homenagens com o devido louvor e reverência.
Ao Poeta do Violino: Marco Antônio
Seus sublimes acordes desfilam acima do cinza da cidade, calam-se as buzinas, os gritos, a dor. Agora é seu reino que se aproxima através de leves e hipnotizantes notas de violino. É na direção da origem dessa magia que caminho, olho cada rua, todas tão iguais... Então te encontro, sorte! A admiração percorre minha alma, estou diante de um solo que nunca está só. Paro, me abrigo sob sua luz, de artista, espírito gentil, ao seu redor vejo todos os mestres da música, sentados aos seus pés, te contemplando e sorrindo, pois reconhecem em seus olhos o mesmo brilho que acompanha a estrela de todo artista, e que guiou suas vidas, esperança na vida e na arte, perfeita harmonia como nos antigos saraus, todos guardados sob as asas da Mãe Inspiração, que como nas divinas pinturas de época exibe sua glória orgulhosa, vitória interior e digna eternidade.
Aqui ao teu lado a honra já
não é apenas um valor perdido no tempo, cultivado pelos poetas utópicos, é
real, verdadeira. Esse tesouro é cotidianamente exposto a todos, oferecido por
sua generosidade de gênio, porém só é reconhecido pelos portadores da luz. Fui
agraciada por conhecê-lo, inabalável guerreiro da arte. Ilustre violinista, é
com máxima felicidade que lhe dedico esta homenagem. Amigo, não me foi
concedido o poder de tornar reis, como merecem, homens com a tua imortal
nobreza, nem tenho o Dom de presenteá-lo com asas para que mais rápido possa
abandonar os ignorantes e procurar novas terras, moradas de mestres, seus
iguais. Tenho somente palavras (e elas são meu tudo), que agora te ofereço,
para que sua existência e memória sejam exaltadas.
Então vem, amigo! Descubra
esse mundo que também é seu, se lance sem medo neste Universo conquistado por
seu Dom. A você, nunca mais anonimato e humilhação. Agora junto aos bons, é
chegada a hora dos merecidos e inesgotáveis aplausos que te seguirão por toda
eternidade.
* Marco Antônio é violinista e sinceramente, talentosíssimo. Seu palco são as ruas de Juiz de Fora, MG. A primeira vez que minha família e eu tivemos a honra de prestigiar o excelente trabalho dele foi em 2002. Temos o hábito de visitar esta cidade todos os anos na época do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, evento espetacular, por sinal. E entre indas e vindas de teatros, imensa é a nossa alegria quando em meio ao burburinho da cidade, ouvimos seus acordes. Já virou tradição, tristes são as vezes que não o encontramos em nossos passeios, já que ele sempre se apresenta em vários lugares da cidade, nunca sabemos exatamente em qual. Consideramos um presente quando nossos caminhos se cruzam.
Se um dia, você, leitor
estiver nesta cidade e encontrá-lo, saiba, tem motivos de sobra para sentir-se
honrado.
Com certeza, um amigo na
Arte, capaz de dedicar ternamente suas notas a quem estiver disposto a
apreciar, sua música combate qualquer sombra ou sentimento pesado, elevando seu
público às mais doces esferas astrais.
Obs:
Não é só pose no retrato
não!
Ele fez questão de executar
magnificamente o Hino Nacional Brasileiro todinho, até durante a sessão de
fotos!
Ana Lettiere, 17 de Setembro de 2009

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