Era noite, eu tentava em
vão adormecer, não tinha paz, estava triste, preocupada com o futuro, o
noticiário daquela noite havia sido deprimente. Foi então que percebi que uma
brisa suave tocava meu rosto e uma leve neblina ocupou o quarto. Fiquei como
que hipnotizada e numa fração de segundos, estava em um novo cenário. Que mundo
era aquele? Para onde meu pensamento me levava?
Estava agora em uma pequena
aldeia no topo de uma montanha, aliás, além daquela aldeia só haviam florestas
e infinitas e paradisíacas montanhas. Pessoas em trajes coloniais passavam
vagarosamente por mim, mas era como se eu não existisse, não olhavam nem
falavam comigo. Pensei "enlouqueci ou estou sonhando". Então, de
repente, aquela calmaria foi interrompida pelo som de clarins que se
aproximavam acompanhados por passos firmes, de um ritmo inquebrável.
Apesar do alarde, os
habitantes daquele lugar pareciam não se importar com nada, nem sequer olhavam
na direção do som. Porém, reparei que algumas pessoas começaram a parar o que
estavam fazendo para observar o que acontecia, essas não pareciam mortos-vivos,
estavam interessadas, mas continuavam sem me ver. Foi aí que testemunhamos o
acontecimento mais miraculoso e belo que se pode presenciar...
Diante de nós, caminhava o
Tempo... temido por uns, idolatrado por outros. Grande amigo de artistas, fonte
infindável de inspiração, com seu perfume de sabedoria eterna. Não era uma
presença e sim uma essência. Criador e transformador, a imortal potência
universal. Lado a lado com o Tempo desfila a História, sua companheira
inseparável. Vem em sua carruagem dourada conduzida por inúmeros unicórnios de
um branco ofuscante. As cortinas estão fechadas, preservando o mistério do
Amanhã. Os unicórnios estão livres, mas de maneira mágica se mantem
perfeitamente organizados e conduzem imponentemente a carruagem.
Logo depois chegam ao
alcance de nossos olhos o que pode ser revelado, o que já foi conquistado. Os
clarins haviam a muito silenciado dando lugar a uma série de festejantes sinfonias.
Muitas alegrias ainda me esperavam para encher minha alma de emoção e
esplendor. Como uma grande confraternização de velhos amigos, heróis,
pensadores e pessoas de Bem de todas as épocas passavam diante de mim, envoltos
em áuras aromáticas. Reconheci grande parte daquelas pessoas. Sim! Eram elas
mesmas! Se trajavam com suas vestimentas preferidas, exatamente iguais aos seus
melhores momentos vividos na Terra. Eram figuras históricas que muito fizeram
pelo mundo e que agora tinham seus retratos estampados em livros. Outras,
anônimas, mas que com certeza muito mereciam estar ali, na imensa côrte da
História.
Para minha surpresa,
percebi que eles não me ignoravam, e que sorriam e acenavam para todos que
tinham parado para ver aquela majestosa passagem. Acenamos, reparei que meu
coração acelerava a cada rosto que eu reconhecia... tantos líderes, mártires e
idealistas que cativaram minha alma e que sem saber explicar, mesmo sendo de
outra época, sempre dediquei profunda amizade e admiração. Todos ali tão perto
de mim!
A alegria no desfile era
crescente, todos conversavam, riam, dançavam. Não pude resistir, fui me
aproximando, até que, quando percebi já estava entre aquela imensidão de
pessoas. Eram muito gentis, quando notavam que eu não conseguia acompanhar a
marcha, pegavam em minhas mãos e me davam forças. Andavam depressa, talvez
demais para meus passos humanos. Notei que os moradores do vilarejo que estavam
até então só observando, haviam se juntado a nós e só aí eles me viram e
acenaram para mim simpaticamente. Só então compreendi, de alguma forma voltei
no Tempo, aquelas eram pessoas do Passado, os que ignoravam tudo o que
acontecia, certamente tinham abandonado suas esperanças, perdendo a capacidade
de ver a beleza do mundo astral. E os que seguiram com o Tempo, com certeza
eram os sábios daquela época. Ali, na reunião das eras, todos eram iguais e se
entendiam fraternalmente.
Quando eu ia me aproximar
para falar com eles, fui arrastada pela multidão, não conseguia parar, nem sair
dali, já estava entrando em desespero, quando ouvi uma voz forte, clara e ao
mesmo tempo tranquilizante, parecia que vinha do meu coração, pois vencia todo
o estardalhaço da música e conversas. Recuperei o ânimo, me senti mais leve. Já
não precisava fazer um esforço tremendo para acompanhar os demais. Então
percebi que seguia de mãos dadas com o Tempo, este jovem senhor das mil faces.
Diante de minhas infinitas dúvidas e temores, ele respondeu:
"Ana, como ousa, sendo
ainda tão nova neste Mundo tão antigo, perder as esperanças? Eu, aquele que
nasceu com o Universo vi ideais de vidas inteiras nascerem, se tornarem
castelos e logo depois desabarem... vi bons sofrendo e cruéis sendo aplaudidos
de pé... e nem por isso desisto da luta, da caminhada. Me culpam por todos os
males da humanidade, pois mesmo que eu ame as mais puras e generosas pessoas,
não posso ajudá-las como gostaria. É minha sina, marchar sempre no mesmo
compasso, não posso parar nem correr para salvar um amigo. Pensa que não sofro?
Mas é a lei da Vida, o Destino de todo homem é livre, é dele o arbítrio. E
muitos ainda escolhem o pior lado da existência. Mesmo assim nunca perdi a
esperança na raça humana. "
E continuou:
" Vê todos esses
sábios e guerreiros que me seguem felizes? Um dia me procuraram como você,
desesperançados. E como estou fazendo com você, fiz com eles. Sou um grande
contador de histórias, amo quem me ouve, pois sei que deseja evoluir, aprender.
Mas não se engane, se há uma coisa que não suporto é ser previsível. Como um
bom professor eu ensino a mesma matéria várias vezes, com paciência, mas a
prova é sempre uma surpresa. "
Então resolvi perguntar:
" Quem são seus alunos
favoritos? "
O Tempo então riu e falou:
" Bem, não posso ter
preferências. Mas tenho muito apreço pelos sonhadores e artistas, pois se
empenham de corpo e alma em me compreender. Não caem diante de mim, pois não
são escravos, nem fecham seus olhos ( muito menos são covardes). Além disso,
tenho um defeito, sou vaidoso, gosto de ser contado em verso e prosa. Nossa!
Quantas homenagens já recebi, não esqueço nenhuma. Tenho uma ótima memória,
como sabe! Acho até graça, quando eles estão dormindo e passo sussurando uma
idéia em seus ouvidos. Correm para escrever, pintar, lutar, etc. Sabem que não
me detenho e que se não me dão atenção, vou atrás de almas mais atentas e
dispostas. Como recompensa ofereço aos meus amigos um presente raro e precioso,
a eternidade. Levo eles, suas obras e pensamentos para todo lugar e espalho
seus nomes pelos Séculos. "
Notei as belas paisagens
que se descortinavam diante de nossos olhos, lugares que sempre amei, sempre
quis conhecer, estava maravilhada, queria parar para apreciar melhor mas não
era possível. O Tempo a todo instante me alertava:
"Agora não! Terá
outras oportunidades para descobrir tudo que deseja, voltará outras vezes.
Afinal, vocês artistas sempre me vencem, me superam e desafiam, pertencem a
todas as épocas. O que a Ciência tenta até hoje, vocês já conseguem a muito
tempo, alcançar qualquer lugar no Futuro ou no Passado. Mas agora, você vem
comigo para sua época atual, pois tenho uma tarefa urgente para você. "
Percebi então ao meu redor
uma energia positiva, confortante. Então senti que meu espírito se afastava
daquele mundo, pensava nos heróis e amigos do passado, queria ficar com eles,
mas logo entendi que esta opção estava fora de questão, por isso fixei o máximo
que pude aquelas lindas imagens em minha memória e voltei à realidade.
Acordei num rompante, senti
meu rosto dormente e frio como quando viajamos de ônibus com a janela aberta.
Uma doce mensagem chegou ao meu coração, era a voz do Tempo: " Faça a sua
parte, faça o que sabe fazer. Você não pode ficar no Passado, pois ainda deve
construir o seu Futuro. Mas quem disse que seus amigos de antigamente não
ficarão com você? Pense bem, eles já fizeram a História deles. "
Uma poderosa inspiração se
apossou de mim, peguei o caderno e comecei a escrever.
* Dedico este texto aos
maravilhosos escritores aqui do site, os quais também considero meus grandes
amigos. E também a todos os artistas de todas as épocas. "Sigam com o
Tempo, cultivem sempre sua arte e as glórias e o reconhecimento chegarão para
todos. "
Ana Lettiere, 27 de Maio de 2009
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